Anaconda (2025): quando o perigo não é a cobra, é a ideia

AREA 78 | Anaconda (2025): quando o perigo não é a cobra, é a ideia

Entre o trash consciente e a aventura preguiçosa, Anaconda 2025 prefere rir de si mesmo.

Existem filmes que nascem clássicos. Outros nascem cult. Anaconda (2025) nasce fazendo contato visual com o espectador e avisando logo de cara: relaxa, eu sei exatamente o que eu sou.

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E essa honestidade, por incrível que pareça, já coloca o filme alguns degraus acima do que ele poderia facilmente ser.

Aqui não existe tentativa de terror elevado, discussão profunda sobre a natureza humana ou qualquer fingimento de plausibilidade científica. A proposta é simples, direta e até admirável pela falta de vergonha: uma cobra gigante, gente tomando decisões duvidosas e um roteiro que claramente abraçou o caos como conceito criativo.

E funciona. Nem sempre, mas funciona.

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O filme aposta forte no humor e no carisma do elenco para sustentar a experiência. Jack Black interpreta Doug McCallister, um videomaker de casamento que sonha em ser cineasta, e lidera o grupo com aquela energia que só ele sabe entregar, alternando entre o exagero consciente e o timing cômico afiado. Ele claramente entendeu o espírito do projeto e decidiu se divertir, convidando o público a fazer o mesmo.

O elenco principal ainda conta com Paul Rudd como Ronald “Griff” Griffen Jr., um ator de fundo de cena que nunca despontou de verdade, Steve Zahn vivendo Kenny Trent, amigo de longa data que abandona qualquer senso de precaução desde o primeiro passo na selva, e Thandiwe Newton como Claire Simons, a voz mais sensata do grupo, ainda que com pouca margem de manobra. Daniela Melchior aparece como Ana Almeida, uma guia com mais coragem que juízo. Juntos, eles formam um grupo com química suficiente para tornar a jornada minimamente envolvente, mesmo quando o roteiro resolve largar qualquer compromisso com a lógica. É aquele tipo de filme em que ninguém parece realmente surpreso com o absurdo ao redor, e isso ajuda bastante.

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Um destaque curioso e positivo é a participação brasileira de Selton Mello como Carlos Santiago Braga, um domador de cobras brasileiro. Longe de ser apenas uma aparição protocolar para mercado internacional, ele tem presença real na narrativa e entrega um personagem que funciona justamente por parecer o mais consciente de que tudo ali está prestes a dar errado. É uma participação que chama atenção sem roubar a cena, algo raro nesse tipo de produção.

O tom do filme oscila entre o suspense aventureiro dos anos 90 e aquela sensação constante de que alguém na sala de roteiro disse “e se a gente só fosse com tudo?”. Em vários momentos você se pega pensando “isso é completamente absurdo”, mas reclamar disso seria o mesmo que ir ao McDonald’s e sair frustrado porque o hambúrguer não parece artesanal.

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E se existe uma cena que resume perfeitamente o espírito de Anaconda (2025), é a sequência nonsense envolvendo um esquilo, um porco selvagem e o personagem de Doug McCallister. É exagerada, caótica, totalmente desnecessária e, justamente por isso, memorável. A lógica vai embora, o filme assume o próprio ridículo e o espectador entende exatamente o tipo de experiência que está consumindo.

Os efeitos especiais cumprem o básico. Não são ofensivos, mas também passam longe de impressionar. A anaconda varia entre momentos aceitáveis e outros que lembram perigosamente um chefe de fase final de videogame antigo. Ainda assim, o filme nunca pede realismo. Ele pede cumplicidade.

O maior acerto de Anaconda (2025) é não tentar pedir desculpas por existir. Ele não se leva a sério demais, não tenta se justificar como algo maior do que é e não subestima o público fingindo profundidade. É um filme que entende que, às vezes, tudo o que a gente quer é desligar o cérebro por duas horas e torcer para alguém correr mais rápido que o colega do lado.

E quando os créditos finais chegam, o longa ainda guarda um agrado para quem tem memória afetiva com o original de 1997. As participações de Ice Cube e Jennifer Lopez funcionam como um aceno direto aos fãs, um gesto simples, nostálgico e eficiente. Não muda o filme, mas arranca aquele sorriso automático de reconhecimento.

No fim das contas, Anaconda (2025) talvez não valha o ingresso de cinema, principalmente se você estiver esperando algo grandioso ou tecnicamente impressionante. Mas como entretenimento despretensioso, ele funciona muito bem como um filme de sábado à noite, daqueles que pedem sofá, expectativa ajustada e disposição para rir do absurdo.

Não é um grande filme. Nunca prometeu ser.

Mas entrega exatamente o combinado.

E, às vezes, isso já é mais do que suficiente.


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